
Nós somos aquela pergunta sem resposta. Aquela nota de violão que soa solta, propapagando o som no ar. Nós somos aquele silêncio que deixa subentendido, aquela frase que morreu no pensamento.
Ainda não acabou. (Letters to Billie)

Nós somos aquela pergunta sem resposta. Aquela nota de violão que soa solta, propapagando o som no ar. Nós somos aquele silêncio que deixa subentendido, aquela frase que morreu no pensamento.
Ainda não acabou. (Letters to Billie)

Lembro até hoje do meu primeiro passeio noturno. Estava chovendo, uma garoa fina e maçante. As coisas estavam encobertas, e o calor era angustiante. Meus pais nem notaram a minha saída; estavam visitando Morfeu.
Eu tinha algum dinheiro, uma caixa de fósforos, uma cabeça cheia, um casaco vermelho desbotado, uma carta destinada à alguém. Não sabia bem quem, dependia de vários fatores: desde a minha vontade de andar até longe até o que acontecesse na rua.
Quando eu percebi que chovia, pensei, com um sorriso no rosto “a chuva vai camuflar as lágrimas”. Quem me dera. Nenhuma delas escapou de meus olhos vazios naquela noite, apenas suspiros. Andava calmo, como se nada mais pudesse me fazer mal. Comprei um maço de cigarros, e aproveitei-os nos leves momentos de paz que a caminhada me proporcionava.
Andei, andei, andei. Por horas a fio. Acabei por me dar na frente de uma casa conhecida; a porta branca, o ipê frondoso na frente. A caixa do correio branca. Sorri. Olhei para o ipê, seco, e depositei o que queria. Sorri.
Acendi o quinto cigarro e parti a voltar. Alguns minutos de caminhada, um encontro inesperado. Cerveja, conversas. Voltei para meu lar com um sorriso no rosto, uma satisfação no coração, uma maço de cigarros proibidos e um leve cansaço.
E o mais importante? Decidi que o mais importante não é o que aconteceu, nem o que vai acontecer. O mais importante é o sentimento bilateral. Não adianta querer tornar algo multilateral.
Afinal, meu amor. Querendo ou não, sou só eu e você.
Prog is a Lie.

Um dia alguém me ensinou uma coisa muito importante: as coisas mais importantes do mundo são seus sentimentos. Alguém me ensinou que insegurança é facilmente esquecida com um abraço apertado e um beijo na testa.
Uma menina de tez clara me disse uma vez que queria que ficasse tudo bem. Uma bela flor me disse um dia que as borboletas salvariam-nos; que se você acreditasse, nada de ruim haveria de acontecer contigo.
Meu avô me ensinou que os pássaros sofrem, que cachorros são esperançosos. Mas a maior lição que ele me deu foi a de que as borboletas, quando estão por perto, não deixam que a gente sofra. Quando as borboletas estão por perto você sabe que vai dar tudo certo. Que vai ficar tudo bem e tudo vai voltar ao normal. Ou vai deixar de ser normal.
Um dia uma menina linda me disse que ela sonhou apenas uma vez, e que o sonho foi estranho. Esquisito, lhe disse com um sorriso no rosto. Ela sorriu. Entrementes, o clima estava tenso. Eu estava tenso. Eu andava tenso. E na hora eu me lembrei. “Mantenha sempre uma borboleta ao seu lado”. E ela não precisa ter asas.
Prog is a Lie.
— Sinto tua falta. — ela mentiu. Pude reparar pelos seus lábios que tremiam.
— Está mentindo. — falei, a voz grossa, seca.
Ela ajeitou aqueles cabelos negros e abaixou o rosto, cutucando sua panqueca de banana pela octagésima vez.
— Está boa né? Bem douradinha. — ela falou.
— Você está mentindo, California.
Ela me olhou. Sabia que odiava aquela música, aquele apelido, e tudo que revolvia em minha volta.
— Não me chama assim. — ela falou me olhando enquanto dependia do mel em suas panquecas para ficar doce. — Tu sabes que…
— Não me interessa o que tu queres ou o que sei, California.
— Odeio Red Hot Chilli Peppers.
— Eu odeio tanta coisa em você que se fosse citar iam demorar mais de um ano. — menti. Soube que mentia porque meus lábios tremiam.
— E odeia o que em mim? Fale, tenho todo o tempo do mundo.
Pela primeira vez ela largou o mel.
E reparei que estava disposta a lutar.— Odeio seu cabelo.
— Por que?
— Porque é seu.
Ela riu.
— Odeio tuas unhas quando arranham minhas costas, ou teus joelhos quando batem em minhas pernas. Odeio tua risada e teu gosto musical, tuas mãos que me apertam, teu nome, Daniela, odeio tuas mentiras, teus trejeitos. Teus bipolares amores, odeio apenas porque você, só você, tem essas coisas ai. Esses comportamentos bossais, da época da era glacial.
— Cala a boca.
— Odeio quando você me manda calar a boca. — acendi um charuto.
— Odeio esse restaurante e essas panquecas.
Eu apertei a toalha da mesa, o silêncio de repente tomou conta. Um silêncio constrangedor, dolorido, que apertava minhas costelas. Eu levantei-me, no guardanapo em cima da mesa, deixei marcado em caneta: “Eu sinto tua falta, California”.
Tamires Carvalho